Crimes sem castigo

Os excessos cometidos na ficção e a violência presente na realidade.

Psiquiatra e psicoterapeuta Dr Jose ThoméAo observar notícias recorrentes nos noticiários, somos obrigados a conviver com a violência como fator indissociável da realidade, e em muitos momentos, prestes a nos afligir, tão naturalmente quanto os congestionamentos em metrópoles. São situações corriqueiras em que temos a falsa impressão de que suportar a violência é parte da vida.

Há algumas semanas um telejornal mostrava cenas em que um automóvel atropelava um motociclista parado em uma esquina. Após a colisão, um rapaz que ocupava o banco do carona desceu do carro e avançou sobre o motociclista que reagiu, sacou um revólver e atirou. E enquanto o apresentador da emissora explicava que eram pai (ao volante) e filho, reagindo contra o assaltante que levara a moto, as imagens mostravam o pai tentando usar o carro como arma mais algumas vezes, antes de descer para socorrer o filho, mortalmente ferido.

Acontecimentos que ganharam manchetes relataram histórias trágicas de jovens assassinados na porta de suas casas, em lanchonetes e no mencionado trânsito das cidades. E mesmo crimes bárbaros como a tortura e morte da dentista Cinthya Moutinho, por mais socialmente condenável que tenha sido, foi reproduzido dias após, levando outro ser humano à morte.

Nas cidades mais estruturadas, onde a miséria é proporcionalmente menor, curiosamente, parece existir mais violência desmedida. Como explicar tanta violência em uma sociedade em que ainda há problemas, mas onde também aconteceram inegáveis avanços no compartilhamento de bens e serviços entre a população?

As sociedades primitivas se organizavam ao redor de grupos rivais. Naquela realidade, em que a sobrevivência dependia da aceitação individual nessas tribos, os líderes eram elevados por suas ações violentas, interpretadas como fonte de poder ou força. Essa constatação antropológica talvez possa explicar, em parte, a identificação humana com o emprego da violência como instrumento de superação de dificuldades. Esta sensação está presente em nosso inconsciente, ou seja, no emaranhado psíquico mais insondável que corresponde aos processos mentais primitivos, onde irrompem muitas das nossas pulsões, sensações e emoções. Por exemplo, a angústia, o medo, as paixões, a vida e a morte.

A partir do inconsciente, a pulsão de morte se estabelece como uma componente intrínseca à pulsão de vida. Ou seja, a percepção da morte nos estimula a valorizar a vida. E assim, por mais que o indivíduo esteja exposto em condições adversas, o ato de matar não é normal e é humanamente identificado como errado. A exceção ocorre somente nas pessoas destituídas de compaixão ou que sofram de séria doença em Saúde Mental. Contudo, a prevalência de pessoas acometidas por psicopatia não poderia ser representativa entre a população, a ponto de explicar tanta violência e mortes.

Há alguns dias, ao acompanhar um desenho “infantil” a que meu neto assistia na TV, percebi que mesmo não havendo armas de fogo, sangue e personagens em agonia, os disparos de laser, golpes e desintegrações, eram representados a todo instante. E atenta à violência disfarçada de divertimento, a criança era estimulada a libertar as suas fantasias, identificando-se com ícones violentos, suas ações e realizações.

O mesmo propósito de entretenimento e oferta para promoção das fantasias inconscientes que todos temos, podemos perceber no cinema, em programas da TV, nos vídeo games e na Internet. O estímulo à violência é oferecido em doses intermináveis para crianças, jovens e adultos. E através de produções elaboradas para reproduzir e criar realidades, há acesso irrestrito à emoção de assistir às cenas em que uma pessoa atira em outra, ou atropela, queima, explode, tortura… Enfim, na era da revolução tecnológica e da comunicação digital, o macabro repertório de formas de ferir e matar, na ficção, parece ser tão inesgotável quanto acessível.

Não há dúvidas que a repetição de experiências emocionais, mesmo quando virtuais, tende a amenizar a surpresa que sentimos naturalmente ao presenciamos um feito inédito. E nesse contexto, a exploração da violência fictícia, como alternativa de divertimento, pode sim estimular atitudes reais. Pois assim como após a emoção despertada pelas primeiras jogadas geniais de um craque da bola, através da frequência com que elas se repetem, nós nos acostumamos não só a acreditar que são movimentos possíveis, como esperamos por eles. Ao assistirmos perseguições em alta velocidade, em que tiros são permanentemente disparados por todos os envolvidos, e os acidentes, ferimentos e morte, num primeiro momento, nos surpreendem. Com o tempo e a repetição de cenas similares, a velocidade, a destruição, os tiros e até as mortes, tendem a se tornar triviais. Monótonas até.

Contudo, recorrer à conclusão que coloca apenas sobre os ombros da mídia e da indústria do entretenimento, a responsabilidade pelo aumento nas ações violentas praticadas em todas as camadas sociais, é uma escolha reducionista, que se abstém de tratar as características mais profundas da origem do problema. Basta observar, por exemplo, as nações que consomem conteúdos audiovisuais idênticos ou similares aos exibidos no Brasil, e revelam índices relacionados a crimes bem menos alarmantes, para percebermos que somente regulamentar a exposição da violência em produtos de ficção, seria prudente, mas isoladamente não representaria grande avanço.

De fato, para modificarmos o progressivo ciclo de violência que se instalou em muitas regiões do país, também deverão ser áreas de trabalho prioritárias: a educação, como forma de desenvolvimento intelectual e humano, a promoção da cultura e dos esportes, como respostas sociais às necessidades emocionais da população (alternativas à violência ficcional), e a presença do Estado, não apenas como cuidador e distribuidor de justos benefícios para as parcelas menos favorecidas, mas também e principalmente, como promotor eficiente de segurança e justiça em todas as camadas sociais.

Presenciar a reconhecida impunidade que assola o país, e assistir aos incontáveis exemplos de criminosos que mesmo identificados, conseguem escapar das punições que, por lei, mereciam (ou da maior parte delas), exerce influência muito mais nociva à ética e promoção de qualidade de vida, que qualquer superprodução violenta de Hollywood.

Em uma sociedade permissiva, onde os cidadãos detectam que há ineficiência na investigação de crimes, e permanente flexibilização na aplicação das leis, a percepção de limites e responsabilidade tende a ser desconsiderada ou negligenciada. Flexibilizam-se sentimentos e a Culpabilidade. Ou seja, a relação psicológica entre os autores dos crimes e a sua conduta.